Eu tenho um sonho

Costuma-se dizer que as pessoas que nascem no campo jamais se esquecem de suas origens,  carregado esse amor à terra por toda a vida. Mesmo com o conforto que a cidade venha oferecer, a saudade dos tempos de outrora, do contato com a natureza em todo o seu esplendor, traz a sensação de que a gente agora é prisioneiro de nossas próprias contingências.

Mas confesso que acalento um sonho de poder um dia voltar para uma casinha simples lá no interior, que tenha uma varanda e um fusquinha na garagem e, na frente, um cinamomo para eu matear na sombra nos dias quentes de verão. E que esteja protegida do vento minuano para que eu possa apreciar dali a geada branqueando no campo em todas as manhãs de inverno.

Na cozinha, quero ter um fogão de lenha comprida com a chapa tinindo de quente com fogo de angico. Então, ouvir o chiado da chaleira preta sobre a chapa ou o borbulhar do arroz de carreteiro cozinhando na panela. E também preparar um café bem forte no bule alouçado à moda de antigamente, bem do jeito que minha mãe fazia.

Quero, novamente, plantar árvores, muitas árvores, criar um cachorro e um gato. Voltar a ter um terreiro cheio de galinhas e ouvir o galo cantar de madrugada. Fazer uma horta para colher verduras e temperos, lavrar um cercado para plantar melancia, moranga, abóbora e mogango. Enfim, ter uma vaca para ordenhar e um porco gordo no chiqueiro.

Além disso, vou plantar uma lavourinha de mandioca, comer batata assada na brasa do fogão e colher espigas de milho verde para cozinhar na panela. No fundo do quintal, construir um galpãozinho para guardar as ferramentas, os arreios e os mantimentos e fazer um fogo de chão para eu e a mulher velha nos aquecermos nas tardes chuvosas de inverno.

Encher os bolsos com bergamotas como eu fazia nos meus tempos de guri. Tomar banho no açude, ouvir o canto dos pássaros, andar pelas estradinhas do campo, olhar as estrelas nas noites de verão e sentir o cheiro de terra molhada nos dias chuva. Ou ainda lavar a fuça numa água de cacimba para refrescá-la no mormaço de janeiro.

Atrelar o cavalo na pipa para buscar água na fonte e, quando chegar o domingo, passear de fusca com a minha chinoca, ir num baile de ramada ou comer pastel nalguma cancha de carreira. E, finalmente, o dia que eu morrer, ser enterrado num cemiteriozinho de beira de estrada, por onde as pessoas passam e, em sinal de respeito, ainda tiram o chapéu.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Geraldo Hasse on 07/05/2011 at 00:14

    Mas bá, agora o índio velho louqueou de vez. Essa visão poética da realidade campeira corresponde à situação ideal da infância, quando a gente desfrutava das coisas com liberdade e sem responsabilidade. Mas o que te impede de ter um fogão à lenha no apartamento?

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  2. Posted by Geraldo Hasse on 07/05/2011 at 00:46

    Vou gastar mais um comentário pra dizer o que devia ter dito primeiro: mas que baita crônica! O professor é como vinho de boa cepa, melhora à medida que vai ficando velho.

    Responder

  3. Posted by marucia on 07/09/2014 at 00:04

    Que lindo!!!!!!!!! primo Delcio, me avisa quero ser tua visinha, como eramos a anos atrás.

    Responder

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