Pravda

Sêneca e Mujica – Toda riqueza está dentro de nós

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Mujica rejeita título de “presidente mais pobre do mundo”

“Pobres são aqueles que precisam de muito para viver”, diz Pepe Mujica.
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Sêneca: “Para a nossa avareza, o muito é pouco; para a nossa necessidade, o pouco é muito.”

Tenho ouvido e lido muita gente identificar a filosofia “mujiquiana” como sendo a reprodução fiel da filosofia senequiana, de Lucius Annaeus Seneca, ou simplesmente Sêneca (advogado, escritor e intelectual do Império Romano – Corduba, 4 a.C. – Roma, 65).

Fernando Soares Campos

Há quem atribua à filosofia senequiana um conveniente guia para pessoas estoicas, resignadas diante do sofrimento e das adversidades da vida, os acontecimentos por elas considerados fatais, determinados pelo destino; portanto, tido como inevitáveis. Aquilo que os muçulmanos designam pela palavra “maktube”, vontade e desígnio de Deus (entre outros significados que os árabes conferem a essa palavra).

Mas analisemos cada uma das sentenças fundamentais nas filosofias de um e de outro:

Mujica: “Pobres são aqueles que precisam de muito para viver”.

Sêneca: “Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja”.

Aparentemente os dois teriam dito a mesma coisa, mas isso só aparentemente e só para o leitor apressado e que precisa de muito para entender um pouco.

 Precisar não é o mesmo que desejar. Se alguém tem R$ 1 milhão e precisa de mais para tocar seu empreendimento (agrícola, industrial, educacional…), esta é uma demanda legítima. Mas se alguém ganha apenas quatro salários mínimos, que estão atendendo às suas necessidades, porém deseja muito mais por mero contentamento de acúmulo e ostentação, isso se constitui numa atitude reprovável.

Observemos que o próprio pensamento senequiano não qualifica ou especifica o “desejo”, o que se constitui numa ligeira falha, pois o próprio desejo pode estar fundado em legítima necessidade: “desejar” muito ou pouco porque “precisa-se” de muito ou de pouco.

“Precisar” implica “desejar”, desejar a realização do suprimento da “necessidade”, e o desejo alimenta a “vontade”, que é o seu veículo, a energia que conduz à realização de projetos e desejos. Eu não devo é transformar meus desejos em projetos, mas os projetos são regidos por desejos, são realizados a partir do desejo, que impulsiona a vontade.

Eu, por mau exemplo, desejo usufruir tudo de bom que já existe por aí, tudo que qualquer milionário usufrui em termos de conforto material, e quero ter facilidade de acesso a tudo que possa existir de bom e de melhor. Simplesmente desejo. Naturalmente desejo. Mas não alimento esse desejo, não animo a vontade ao ponto de transformar a sua realização em meta, em projeto de vida, invertendo a ordem natural das coisas. Por que “invertendo”? Porque sou uma pessoa que acredita piamente que mais vale ser do que ter, porém não admito que o ser prescinde do ter. O ter só pode ser prescindido de suas formas egoísticas: quero ter a qualquer custo, quero ter para mim, para os meus, mas não quero que os outros também tenham para si ou para os seus; ou: depois de mim, eu, e depois, se sobrar e eu considerar que devo fazer caridade, jogo os ossos para os outros; ou mesmo aplicando a lei de murici: cada um cuide de si.

“Ser” também é, por si mesmo, “ter”, é sólido patrimônio, inalienável. Ser o quê? Erudito? Nesse caso, é ter instrução, deter muito conhecimento, ampla cultura formal, científica. Ser sapiente é ter capacidade de interpretar a vida, as relações interpessoais, os fatos, a história, é ter domínio, teórico ou prático, de um assunto, uma arte, uma ciência, uma técnica, é ter poder de influenciar, de tomar decisões acertadamente. Ser solidário é ter um desenvolvido espírito de fraternidade, de interesse em ajudar o semelhante, apoiar seus projetos legítimos, e isso só se alcança praticando e trocando experiências e informações que se tem.

“Ter” é “ser” dono, é ter o domínio; enquanto “ser” é “ter” capacidade de exercer o domínio.

Ter a posse do “ser material” ou do “ser imaterial” é uma só forma de ter, é domínio do ser. E só faz diferença nas formas de aquisição (se adquiridas de forma honesta ou desonesta) e de emprego (se é para servir a um maior número de pessoas, ou se é para ser acumulada de forma egoística, o ser material ou o imaterial).

O próprio Sêneca também falou coisas assim:

“Possuir um bem, sem o partilhar, não tem qualquer atrativo”.
Portanto não há nenhum pecado em possuir muito e partilhar os frutos desse muito.

“Para a nossa avareza, o muito é pouco; para a nossa necessidade, o pouco é muito.”

Fico com a sentença senequiana, mas com ligeira observação:

“Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja [por mera avareza]”.

Mujica diz: “Pobres são aqueles que precisam de muito para viver”. E existem milhões de brasileiros que diriam: “Preciso de muito para viver, preciso de uns quatro salários mínimos”. É com o que Mujica vive hoje, e é o que eles consideram muito. E isso, bem sabemos, é tão pouco!

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