Dias emburrados

 O inverno se aprochega devagarito aqui neste Rio Grande bagual, fazendo alguns dias emburrados e frios.

Ao anoitecer, as galinhas se recolhem ao galinheiro e os porcos já dormem nos seus ninhos de palha. Enquanto isso, minha mãe fecha e tramela portas e janelas do rancho e eu recolho lenha para o fogão.

A noite chega fria e escura, é hora de eu lavar os pés na gamela de corticeira, esfregando com sabugo ensaboado para tirar bem o cascão. Ao lado, as minhas velhas tamanquinhas rabonas estão à afeição para eu calçar.

Nesse meio tempo, labaredas se erguem do fundo do fogão de lenha comprida para lamber a chapa, aquecendo a água da chaleira preta que chia. É a água para o mate que espera o meu pai chegar do serviço.

E a minha mãe, então, arreda um tição, retirando brasas para colocar no fogareiro no meio da cozinha.Aí eu puxo o cepo para bem perto do fogo e absorvo o calor nas palmas da mão.

Em pouco tempo, estamos todos ali reunidos, sob a luz tênue de um lampiãozinho a querosene, esperando que minha mãe retire da broca aquela velha  panelinha trípode, lotada com arroz de carreteiro de charque.

Esses dias emburrados que prenunciam o inverno – a chegada das geadas e do vento minuano – servem para nos reunir no aconchego do rancho à espera de mais um inverno rigoroso aqui no  Sul.

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