No boteco

Quando eu era um piá já entroncado e morava na vila, de vez em quando, largava os meus livros de latim e procurava um boteco para escutar a prosa dos bebuns. (Tempo perdido aquele: lecionei em três universidades e ninguém me perguntou se eu sabia latim).

Mas o boteco tinha o seu valor. Foi a maior democracia que conheci, não havia lá hipocrisia nem censura, brancos, negros e pardos, todos eram iguais perante o copo.  Até o santo bebericava do mesmo cálice.

O boteco abria, generosamente, sua portas em todos os dias da semana, inclusive em domingos e feriados, oferecendo água benta a todos os que sofriam de algum mal físico ou espiritual.

O cidadão, de acordo com as posses e paladar, podia optar por uma purinha ou com limão ou losna. Somente o Valdomirão bebia uma Brahma, alternadamente, com um copo de cachaça. Mas este podia, era burguês.

O boteco era, assim, o último reduto da plebe, dos desocupados, dos descarteirados, dos iletrados, dos descornados, enfim, que lá compareciam, diariamente, para desafogar as mágoas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: