Sputnik

‘Grande pioneiro’ russo que marcou História brasileira © Foto: Wikipedia/Thallis Guimarães Thebaldi/CC-BY-SA-3.0
SOCIEDADE
13:48 26.05.2016(atualizado 13:51 26.05.2016) URL curta
Elena Kleymionova
112820
Na cidade de Colatina, famosa por seu belíssimo pôr-de-sol, no estado de Espírito Santo, há uma rua chamada em homenagem a Pedro Epichim (ou Epichin). A rua é bastante extensa e segue paralelamente ao Rio Doce, talvez para nos lembrar das viagens deste homem que ficou na História brasileira.

Hoje, pouca gente sabe quem foi o engenheiro naval que deu seu nome à rua da cidade.

Pedro Epichin, o russo que se tornou brasileiro

Stéphanie Tavares
© FOTO: STÉPHANIE TAVARES
Moça sem medo: três anos, 201 países, três recordes mundiais
Pedro Epichim nasceu em 12 de junho de 1890 na Rússia e morreu em 29 de outubro de 1968 no Brasil. O imigrante russo comandou por muitos anos o barco a vapor Juparanã e realizou viagens entre Colatina e o porto de Regência.
Não há nenhuns dados oficiais sobre o seu nome real ou origem. Podemos somente colocar a hipótese de seu nome ser Pyotr, que pode ser considerado o análogo russo do nome Pedro, enquanto o seu apelido, Epishin podia se ter transformado em Epichim sob a influência da fonética do português brasileiro.

O único retrato conhecido de Pedro Epichim, que faz parte do acervo do Museu de História de Regência, mostra um homem jovem em uniforme militar de marinheiro. O único detalhe da sua aparência que pode contar-nos mais do que sabemos é a inscrição na fita ao redor de seu boné. Indica que, muito provavelmente, prestou o serviço militar no cruzador Zabaikalets (por tradição, no Império Russo as fitas dos bonés dos marinheiros tinham os nomes dos navios nos quais prestavam serviço, agora têm o nome de Frota na qual marinheiros prestam serviço). Conforme algumas informações, o cruzador Zabaikalets foi lançado ao mar em 1906 e, a partir de 1907, foi colocado ao serviço na Frota do Mar Báltico do Império russo.

No Império russo os marinheiros eram a elite das Forças Armadas. Como regra, somente os nobres se podiam tornar oficiais da Marinha. Recebiam uma boa educação e destacavam-se como homens leais ao Czar russo. Muito provavelmente, Pedro Epichim era filho de fidalgos russos, mas isso é também somente uma hipótese.

Retrato de Pedro Epichin, marinheiro russo
© FOTO: ACERVO DE FOTOS DO MUSEU HISTÓRICO DE REGÊNCIA
Retrato de Pedro Epichin, marinheiro russo

Festival Dança em Foco no Rio – Videodança Grey Matter- USA
DIVULGAÇÃO
Rio de Janeiro recebe Festival Internacional de Vídeo e Dança 2016
As razões, bem como a altura da sua imigração para o Brasil, são desconhecidas. Segundo a professora Maria Lúcia Grossi Zunti, autora do livro Panorama Histórico de Linhares, ele teria abandonado a Rússia após a Revolução de Outubro de 1917 entre os muitos militares não solidários com o novo poder. Assim, a razão principal podia ter um caráter político.
Ao mesmo tempo, o jornal O Colatinense publicou informações que confirmam que a sua travessia do oceano Atlântico podia ter sido efetuada ainda antes do começo da Primeira Guerra Mundial. Qualquer que seja a verdade, segundo José Tristão Fernandes, Pedro Epichim desembarcou de um navio russo que aportou à cidade de Vitória e acabou ficando no Brasil, onde também encontrou uma mulher com quem se casou. Ele viria a ter 8 filhos e 21 netos.

“Era engenheiro naval e foi ter às oficinas de Vitória-Minas, em João Neiva”, cita Sam de Mattos Jr a publicação de José Tristão Fernandes.

O presidente do Espírito Santo (1924-1928) Florentino Avidos encontrou o imigrante russo e confiou-lhe “a missão de montar as peças e erguer o maquinário de aço”.

Foi assim que Pedro Epichim, engenheiro naval russo, se tornou comandante do vaporzinho brasileiro chamado pelos colatinenses de Velho Comandante ou Almirante.

O Juparanã

Theatro Municial do Rio apresenta a ópera Lá Bohème de Puccini
DIVUGLAÇÃO
Theatro Municipal do Rio apresenta a ópera Lá Bohème de Puccini
Qual era o instrumento principal do seu trabalho? O vapor Juparanã foi inaugurado em 1926. Segundo as Crônicas do Espírito Santo, escritas por Rubem Braga, o vapor, de cor branca, tinha “26 metros da popa à proa, e 6 de largura”. Era movido a lenha e dotado de um motor de 80 cavalos. Tinha dois andares e uma chaminé. No andar de cima acomodavam-se os passageiros da primeira classe, e no andar de baixo – os da segunda. Tinha a capacidade de 300 pessoas e podia levar “até 25 toneladas de carga”. Conforme o texto de Maria Lúcia, o vapor realizava duas viagens por semana entre Colatina e Regência. Uma de ida e outra de volta. O Juparanã fazia várias escalas durante a viagem.
Vapor Juparanã, primeira metade do século XX
© FOTO: ACERVO DE FOTOS DO MUSEU HISTÓRICO DE REGÊNCIA
Vapor Juparanã, primeira metade do século XX
“Durante o percurso, o vapor parava muitas vezes perto de algum barranco onde havia uma bandeira branca, sinal certo que indicava a presença de passageiros ou cargas. Outras vezes parava para se abastecer de lenha que alimentava a caldeira e fazia girar as grandes rodas, rodas em forma de pás que moviam o barco”, escreveu Maria Lúcia.

O vapor foi local de encontros interessantes, de aventuras e novas experiências durante as viagens no rio Doce, que naquela altura era caudaloso.

A história das viagens do Almirante Epichim acabou em um naufrágio. Por muitos anos, o velho vapor continuou à beira do rio Doce.

Vapor Juparanã à beira do rio Doce, Espírito Santo, Brasil
© FOTO: ACERVO DE FOTOS DO MUSEU HISTÓRICO DE REGÊNCIA
Vapor Juparanã à beira do rio Doce, Espírito Santo, Brasil
A paisagem do rio mudou muito. Agora ele não é tão caudaloso como antes. A catástrofe que atingiu o rio em 2015 arruinou a beleza e biodiversidade do seu leito.

A grande missão do marinheiro russo

Fotógrafo brasileiro Mauricio Lima, tirou 2º lugar com esta foto, na categoria Vida Cotidiana no World Press Photo 2016
MAURICIO LIMA
Rio recebe 59ª edição da exposição internacional World Press Photo
Conforme os Anais do Senado de novembro de 1968, Pedro Epichim foi um grande homem que conseguiu tornar-se brasileiro naturalizado e patriota exemplar do Brasil. O senador Cattete Pinheiro até chamou-o de “pioneiro da região do Espírito Santo”.
Segundo várias fontes, a missão do imigrante russo não era somente transportar pessoas e cargas entre diferentes pontos das margens do rio, mas contribuir para a colonização e desenvolvimento do Vale do Rio Doce. Entre outros pormenores conhecidos, sabe-se que Pedro Epichim não aceitava pagamentos pelo transporte de lavradores que chegaram para a região e não tinham forma de pagar. As recordações de muitas pessoas provam que era um verdadeiro filantropo que agia nos interesses de toda a nação brasileira, um homem forte que tinha a vontade de se abrasileirar para cumprir a sua missão de forma melhor.

As pessoas que conheciam Pedro Epichim estão morrendo e hoje poucos podem recordar o tempo em que o vapor com o comandante russo a bordo aportava em Colatina vindo de Regência.

Agradecemos ao ouvinte da rádio Sputnik Emerson Eleoterio do Rio de Janeiro pela ideia da matéria e informações iniciais.

20
Tags:
vapor, desenvolvimento, imigração, marinhe

Leia mais: http://br.sputniknews.com/sociedade/20160526/4788738/epichin-marinheiro-russia.html#ixzz49mfGeHBP

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: